Os robôs estão mais presentes no Brasil

06/06/2017

O estado de São Paulo teve impacto importante sobre o nível de emprego no setor: a cada 1% de mecanização, 2,7 mil empregos foram perdidos. 

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Foto divulgação

 

Por Olheinfo – Em 1811, em plena Revolução Industrial, a cidade de Nottinghamshire, na Inglaterra, foi tomada por um novo tipo de protesto: a quebra de máquinas nas manufaturas. Este foi o ponto de partida de um dos mais emblemáticos movimentos contra a industrialização do século XIX: o ludismo, que se espalhou por todo o país, especialmente nas cidades fabris como Yorkshire, Lancashire, Leicestershire, entre outras, onde as máquinas estavam substituindo o trabalho do homem. O termo ludismo deriva do nome de Ned Ludd, supostamente um operário (já que não há comprovação histórica de que ele tenha realmente existido) que teria destruído as máquinas de seu patrão. Inicialmente pacífico, o movimento se tornou violento quando os trabalhadores passaram a invadir as fábricas durante a noite para roubar ou destruir as máquinas, que, para eles, eram responsáveis pelo fim de seus empregos. 

 

O ludismo marca o início de um debate que persiste até os dias atuais: o impacto gerado pela automação de processos industriais sobre a mão de obra humana. Se no passado, na época dos ludistas, o cerne das inquietações e da revolta era a máquina a vapor, hoje o debate se renova em função da presença crescente de robôs nas linhas de produção. Dados da Federação Internacional de Robótica, na Alemanha, apontam que, somente em 2013, foram comercializados 159,3 mil robôs industriais em todo o mundo – 70% deles para países como o Japão, China, Estados Unidos, Coreia e Alemanha. Os robôs são usados nas mais variadas áreas: da indústria eletrônica à de alimentos, passando pela indústria química e a de plásticos. O setor que mais utiliza robôs, contudo, é a indústria automobilística, de acordo com a Federação.

 

Mais máquinas, menos empregos

Assim como em outras partes do mundo, no Brasil os robôs estão mais presentes nas fábricas de automóveis do que nos demais setores. Hoje, muitas indústrias têm setores inteiros onde a produção está a cargo de robôs. Este movimento está relacionado à adoção de sistemas de produção globais em que fábricas, de uma mesma empresa, em várias partes do mundo, adotam processos produtivos semelhantes – ou seja, um carro de uma empresa japonesa pode ser produzido segundo os mesmos padrões no Japão e no Brasil.

 

Os robôs são capazes de realizar tarefas difíceis (ou impossíveis) para os humanos – como trabalhar ininterruptamente, com precisão, ou carregar cargas de 200 quilos ou até 300 quilos (no caso da indústria automobilística), além de tornarem mais ágeis, eficientes e flexíveis os processos de produção nas fábricas. O contraponto, porém, é o impacto da introdução das máquinas sobre o emprego.

 

Utilizando dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o sociólogo José Pastore, pesquisador da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), afirma que, nos anos de 1980 e no início da década de 1990, a população de robôs nas fábricas cresceu mais rapidamente do que a de humanos. Segundo Pastore, especialista em relações de trabalho, emprego e recursos humanos, a taxa de crescimento da população mundial naquela época era da ordem de 2% ao ano, enquanto a de robôs cresceu 45% nos anos de 1980 e 74% no início dos anos de 1990.

 

O principal impacto da introdução de robôs nos processos industriais recai sobre o emprego, na visão de Pastore. “É comum dizer-se que, onde entra a máquina, sai o trabalhador”, afirma o professor, no artigo “Tecnologia, educação e legislação: seus impactos sobre o emprego” (2000). Na verdade, relativiza o docente, o raciocínio não é tão direto, pois os robôs tiram emprego em alguns segmentos da economia, mas geram em outros – na própria indústria de robôs, por exemplo. No entanto, a introdução desses equipamentos modifica a estrutura do emprego e causa a eliminação de postos de trabalho, sobretudo para a mão de obra menos qualificada.

 

Novamente, a indústria automobilística é um bom exemplo: na década de 1980, as montadoras empregavam 80 trabalhadores a cada mil veículos produzidos. Atualmente, são 35 pessoas para a mesma quantidade de veículos. Nesse sentido, defende Pastore, os processos de automação na indústria precisam ser acompanhados de políticas e ações voltadas à formação dos trabalhadores, a fim de ampliar a reinserção dos demitidos no mercado de trabalho.

 

Impacto na agricultura

Os processos decorrentes da introdução de máquinas e robôs na indústria se replicam em outros segmentos da economia, como a agricultura. Embora a introdução de máquinas colabore para melhorar a produtividade, reduzir a incidência de acidentes de trabalho, dentre outros ganhos, também neste setor a mecanização reduz o número de postos de trabalho.

 

Os pesquisadores Carlos Eduardo Fredo, do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo (IEA), e Sérgio Luiz Monteiro Salles-Filho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisaram o impacto da mecanização no setor sucroalcooleiro (açúcar e cana). Em artigo publicado este ano, estes autores afirmaram que a mecanização da cultura cana-de-açúcar no Estado de São Paulo teve impacto importante sobre o nível de emprego no setor: a cada 1% de mecanização, 2,7 mil empregos foram perdidos. 

 

Tal perda é significativa, quando se considera o peso do setor na economia paulista. Em 2009, o setor sucroalcooleiro empregava 241,4 mil pessoas. No mesmo ano, o cultivo da cana-de-açúcar respondia por 26% do total de 370,9 mil empregos formais no setor agropecuário no Estado de São Paulo. Considerando a tendência de baixo nível de escolaridade do trabalhador rural em relação ao trabalhador urbano – 5,2 anos na agricultura contra 8,2 anos na indústria –, o impacto da mecanização tende a ser até mais intenso no campo do que em outros setores. “No caso do setor sucroalcooleiro, a adoção tecnológica entrou com tamanha força e velocidade que afetou diretamente os empregos dos cortadores de cana-de-açúcar em um período muito curto, dificultando o processo de requalificação e realocação”, analisa Fredo.

 

No setor sucroalcooleiro, a mecanização está ligada à implementação da legislação para reduzir a queima da palha da cana, a fim de facilitar o corte. O Protocolo Agroambiental, firmado em 2007 entre os produtores e o governo do Estado de São Paulo, estabeleceu 2014 como prazo final para encerrar a queima da cana, exceto em áreas onde a inclinação do terreno é superior a 12 graus. Nessas áreas, o fim da queima, com a eventual substituição do corte manual pela colheita mecanizada, pode impulsionar ainda mais a mecanização.

 

Desafio da requalificação

Uma das iniciativas para requalificar cortadores de cana que perderam o emprego em virtude da mecanização da lavoura é o projeto RenovAção, liderado pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) em parceria com a Feraesp  (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo) e patrocínio das empresas Syngenta, John Deere e Case, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os dados do projeto indicam que, entre 2009 e 2012, foram requalificados 5,7 mil trabalhadores rurais do Estado de São Paulo em 30 cursos diferentes, para exercer funções dentro e fora do setor sucroalcooleiro. No entanto, de acordo com Fredo, não há informações sobre o futuro desses trabalhadores dispensados – se foram realocados no próprio setor, em outra atividade agropecuária ou em outro segmento da economia (construção civil, serviços, etc.). “O que tento mostrar em meus estudos é que toda adoção tecnológica deve ser acompanhada de um estudo de avaliação de impactos, no caso impacto social, isto é, quantos empregos serão eliminados e quantos trabalhadores devem ser capacitados e realocados e mesmo quantos empregos serão gerados por conta da tecnologia”, conclui o pesquisador.

 

Fonte: http://pre.univesp.br/robos-ficarao-com-nossos-empregos#.WTaU3pLyu70

Por: Marta Avancini – Em: 01/09/2014